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Artigo: Pipa, confesso que aprendi

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03/01/04
Gilson Schwartz - Jornalista(*)

Pipa é um vilarejo que não tem hospital, mas já tem escola particular. Ainda não tem saneamento básico, mas tem loja do Boticário. Não tinha provedor público de internet, apenas cyber-cafés - mas agora tem.

A instalação desse primeiro telecentro é parte das atividades da Rede Pipa Sabe. O primeiro passo foi colocar uma antena para conexão em banda larga à internet, associada ao programa GESAC dos Ministérios das Comunicações e da Educação. Os microcomputadores foram oferecidos pela Dataprev. O apoio financeiro para criar em Pipa um laboratório avançado de redes sociais e moeda social veio da Caixa Econômica Federal. O evento foi marcado por uma primeira rodada de oficinas em várias áreas do conhecimento e da cultura, coordenadas pelo artista plástico Eddy Polo, residente em Pipa e um dos agitadores da Galeria Café Cultura.

Veio também apoio logístico e intelectual da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O Sebrae-RN ajudou a fundar essa rede. Assim como a Prefeitura de Tibau do Sul. O telecentro foi instalado no terraço de uma pousada, cortesia da família Marinho. A articulação política, financeira e intelectual que levou ao surgimento da rede Pipa Sabe partiu da Cidade do Conhecimento, um projeto do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. Foi fundamental em Pipa o apoio de proprietários de pousadas e restaurantes, lojas e bares, artesãos e artistas, nativos e estrangeiros, que ajudaram a colocar em circulação a moeda cultural da rede Pipa Sabe, o garatuí.

Conclusão: para criar uma rede digital, para plugar uma cidade nessa rede de aprendizado e conhecimento, é preciso antes de tudo criar uma rede de relacionamentos humanos. Ultrapassar as barreiras entre setor público, setor privado, terceiro setor e academia. Essa é a proposta da Cidade do Conhecimento. Isso é o que se busca criar em Pipa, a partir de Pipa, para ser multiplicado país afora.

O foco do trabalho que a USP propõe junto com tantos parceiros é reforçar noções de sustentabilidade, o desejo pelo conhecimento e a consciência de que este conhecimento será o fator determinante entre a marginalização ou a inclusão social na Pipa de amanhã. Quem souber produzir conhecimento em rede terá lugar nos mercados e organizações do futuro.

Dizem que nada é coincidência. Pois nesse momento "coincidem" no Rio Grande do Norte projetos que têm como horizonte o desbravamento do conhecimento humano. O professor Nicolelis está por aqui criando um novo centro de pesquisas em neurociência. A USP chega também com a instalação da Rede Pipa Sabe e o lançamento de uma nova moeda. Tudo isso num estado brasileiro que hospeda pesquisas na UFRN que são referência nacional e internacional na área de redes digitais, pesquisas sobre ambiente, cultura popular, movimentos sociais e tecnologias de habitação.

Esse caldo de cultura, ao mesmo tempo local e global, conectado aos principais centros de pesquisa do país e do mundo mas ao mesmo tempo afirmando a importância de descentralizar o poder do saber, vai frutificar ainda mais nos próximos anos. É no céu do Rio Grande do Norte que brilham essas estrelas, ao mesmo tempo sementes de um novo nordeste, de um novo Brasil.

O processo é lento, diz o rap de B-Negão. É também difícil, cravado pelas nossas dificuldades e limitações humanas. Exige acordos, negociações, pactos, concertação. Mas ele já começou, é irreversível, com erros e acertos. Professor na maior universidade pública do país e coordenador de uma iniciativa para fazer da educação, do conhecimento e da cultura as bases de uma nova economia, sou levado a parodiar o título da auto-biografia de Pablo Neruda: "confesso que aprendi". E continuo aprendendo com todos os que participam desse mutirão pela democratização do saber. Vem pra nova Pipa você também!

(*) Gilson Schwartz, economista, sociólogo e jornalista, é diretor acadêmico da Cidade do Conhecimento, do Instituto de Estudos Avançados e professor da disciplina "Economia da Informação e Novas Mídias" do programa de pós-graduação do departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É autor do livro "As Profissões do Futuro" (Publifolha).