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Quilombos em rede: novo conteúdo no GESAC

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Gilson Schwartz (*)

Ao lado de Pipa, poucos quilômetros ao sul, seguindo pela orla e logo depois do chapadão, pode-se alcançar uma paisagem que é praticamente a antítese do agito cosmopolita movido a grifes e temperado pela "night" da praia potiguar: Sibaúma.

Área remanescente de quilombo, tem uma escola pública funcionando em condições precárias, uma rua e casebres de taipa que em alguns casos parecem brotar da própria areia. É o quilombo de Sibaúma.

Listado como sítio arqueológico pelo IPHAN, as referências turísticas ao lugar concentram o foco na paisagem, nas dunas, no mar, nas falésias. A memória do quilombo existe praticamente apenas para quem ainda vive ali.

Na primeira rodada de oficinas e projetos da Rede Pipa Sabe, destacamos uma equipe e dedicamos uma atenção especial ao contato com essa comunidade. Especialmente com o Professor Francisco, vice-presidente da Associação Comunidade de Quilombolas de Sibaúma. Na escola, nos reunimos com crianças, homens e mulheres, alguns idosos. A riqueza de uma cultura de afro-descendentes ainda ignorada começou a emergir em conversas sobre a capoeira dos meninos e a vontade de aprender de uma criança portadora de necessidades especiais. Um senhor falou de sua paixão pela música.

Na "História do Rio Grande do Norte", publicada pela Tribuna do Norte, de Natal, encontramos referências importantes para entender a origem de Sibaúma. A região se abastecia de escravos em dois centros: Pernambuco e Maranhão. De Pernambuco os negros eram enviados para a região açucareira potiguar, sobretudo a partir de 1845, quando a indústria do açúcar foi ativada nos municípios de São Gonçalo, Ceará-Mirim, São José de Mipibu, Papari, Goianinha e Canguaretama.

Segue a "História": "os negros comprados no Maranhão chegavam ao Rio Grande do Norte via Ceará, sendo desembarcados em Areia Branca, atendendo às necessidades da indústria salineira de Açu, Mossoró, Macau e Areia Branca. Alguns negros, contudo, não suportavam a vida miserável que levavam. Fugiam, penetrando no interior, e formando comunidades "fechadas", que se isolavam da sociedade dos brancos, mantendo somente um contato estritamente necessário, como aconteceu em Coqueiros, Sibaúma, Zumbi, Negros do Riacho, Capoeira dos Negros. A religião predominante é a católica, ocorrendo, entretanto, um sincretismo com crendices populares, oriundas de cultos africanos e nativos. Uma tradição muito antiga da comunidade de Capoeira dos Negros é a "Dança do Pau Furado", hoje sem continuadores, lembrada pelos mais velhos, mas com tendência ao desaparecimento".

Tendência ao desaparecimento. Como em tantos lugares no Brasil, a perda da memória social é uma das formas de garantir que os excluídos não tenham direito a um futuro.

Como usar as mais avançadas tecnologias digitais, essas que nos apontam para o futuro, para resgatar, preservar e desenvolver essa memória social dos excluídos?

Com esse objetivo e tendo informado ao Ministério das Comunicações a "descoberta" de Sibaúma, a área remanescente de quilombo foi incluída no programa GESAC. Receberá sua antena e equipamentos até o final de fevereiro.

É o ponto de partida para uma rede mais ampla de informação e comunicação sobre as comunidades de quilombolas em todo o país. A Rede Nacional de Quilombos Digitais nasce portanto como um esforço para que a antena de Sibaúma não seja um exotismo isolado, mas sirva de estímulo para o investimento na recuperação de direitos de afro-descendentes.

Em fase de formação, nem todos os pontos da rede estarão imediatamente conectados à internet. Há lugares, como as comunidades do Vale do Ribeira, em São Paulo, onde a energia elétrica não chega e ter acesso a uma revista já é um luxo. Já no Ceará, em Redenção, primeira cidade brasileira a libertar escravos, os projetos de mobilização da comunidade pelo resgate da memória de afro-descendentes estão na ordem do dia e já nesse Carnaval suas manifestações chegarão à rede.

Dois desafios se combinam: o da inclusão digital e o da produção de conteúdo para a rede de ensino que, em todo o país, passa a integrar o trabalho com História e Cultura Afro Brasileira em seus conteúdos curriculares. E agora é lei. Trata-se da Lei 10.639/03 que instituiu a obrigatoriedade do tema nas escolas.

Resta saber se esse conteúdo será produzido apenas por especialistas, autores de livros didáticos, ou se as próprias comunidades terão finalmente espaço, vez e voz na reconstrução coletiva dessa memória.

Vamos articular recursos humanos, financeiros, tecnológicos e culturais para enfrentar o desafio da inclusão digital de comunidades de afro-descendentes. Será uma ampla mobilização institucional com uma agenda que vai além da instalação de pontos de acesso, priorizando o uso de software livre e a geração de conteúdo e de oportunidades de emprego e renda. A RNQd surge inicialmente a partir de pólos de articulação em 8 estados que compartilharão recursos para viabilizar um sistema de fomento à produção e distribuição de conteúdo por meios digitais associado ao portal de inclusão digital do governo federal e às ações de certificação e inclusão digital do ITI - Instituto Nacional de Tecnologia da Informação - (http://www.iti.gov.br), com as quais a Cidade do Conhecimento já mantém acordos de cooperação e convênios.

A Rede Nacional de Quilombos Digitais pretende fomentar esse resgate e contribuir para uma nova forma de produção e distribuição de conteúdo didático estratégico para a sociedade brasileira.

Instituições integrantes do projeto RNQd

  • Secretaria de Cultura, Turismo e Meio Ambiente do Município de Redenção, Ceará
  • Associação Comunidade de Quilombolas de Sibaúma, Rede Pipa Sabe, Tibau do Sul, Rio Grande do Norte
  • Centro de Estudos e Pesquisa em Cibercultura, Universidade Federal da Bahia, Salvador, Bahia
  • Casa dos Contos, Ministério da Fazenda, Ouro Preto, Minas Gerais
  • Núcleo de Comunicação Comunitária, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro
  • Projeto Cooperativo Imagens Negras, Cidade do Conhecimento, Instituto de Estudos Avançados, Universidade de São Paulo, São Paulo
  • Programa Eu Cidadão, Agência de Integração e Desenvolvimento, Unisinos, São Leopoldo, Rio Grande do Sul
  • Quilombo Digital, Grupo de Estudo da Ética e Filosofia do Software Livre, Organização Não-Governamental, São Paulo
  • GESAC - Governo Eletrônico: Serviço de Atendimento ao Cidadão, Ministério das Comunicações
  • ITI - Instituto Nacional de Tecnologia da Informação, Casa Civil, Presidência da República
  • Instituto do Negro Padre Batista, Departamento de Apoio a Quilombos, atua junto a meninos e meninas de rua da região da Praça da Sé, São Paulo, Capital
  • Comunidades do Vale do Ribeira: Associação do Quilombo Nhunguara , Associação do Quilombo de Pedro Cubas, Associação do Quilombo Ivaporunduva, Associação do Quilombo André Lopes, Associação do Quilombo Sapatú, Associação do Quilombo São Pedro, Associação do Quilombo Galvão.

(*) Diretor da Cidade do Conhecimento, projeto do Instituto de Estudos Avançados da USP associado ao GESAC na incubação da Rede Pipa Sabe (www.cidade.usp.br/pipa) e na articulação da Rede Nacional de Quilombos Digitais (RNQd). Professor da disciplina "Economia da Informação e Novas Mídias" na pós-graduação da Escola de Comunicações e Artes da USP.